Pelo menos 50 civis mortos em protestos no Irão. Khamenei diz que regime "não recuará"

A ONG Human Rights Watch, indicou esta sexta-feira que, "durante os primeiros 13 dias de protestos em todo o Irão, 51 manifestantes, incluindo nove crianças com menos de 18 anos, foram mortos e centenas ficaram feridos".

Graça Andrade Ramos - RTP /
O ayatollah Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão, perante apoiantes em teerão, dia 3 de janeiro de 2026 Wana - Reuters

Este é o número mais elevado de vítimas mortais reportado pelas ONG com contactos no Irão. A agência de notícias Human Rights Activist News Agency (HRANA) refere a morte de pelo menos 48 manifestantes e de 14 membros das forças de segurança.

O número de vítimas pela repressão das forças de elite do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), poderá contudo ser muito mais elevado.

O regime iniciou entretanto uma estratégia de intimidação e de propaganda, incluindo com contramanifestações, de apoio ao governo.

A Guarda Revolucionária emitiu nas últimas horas um comunicado, a anunciar que não tolerará a continuação da actual situação no país.

E o Líder Supremo do Irão surgiu, também esta esta sexta-feira, num discurso televisionado, para garantir que o seu governo não irá recuar perante o que chama agitadores empenhados em causar destruição no país. "O arrogante Donald Trump será derrubado", afirmou, referindo-se ao presidente norte-americano, que ameaçou intervir no país se se registarem mortos na repressão das minfestações.

Ali Khamenei avisou que o seu país não recuará perante a crescente onda de protestos que desafiam a República Islâmica, no poder desde 1979.

Perante gritos dos seus apoiantes, que entoavam 'Morte à América', o ayatollah Khamenei adotou um tom agressivo num discurso transmitido pela televisão estatal.

"A República Islâmica não recuará perante os sabotadores", declarou, denunciando a destruição, no dia anterior, de um edifício em Teerão por "um bando de vândalos".

A retórica está a ser difundida também pelos meios de comunicação nacionais, afetos ao regime, que denunciaram os estragos em várias cidades, e a destruição de 42 autocarros, veículos públicos e ambulâncias, todos incendiados, assim como 10 edifícios oficiais, só na capital.

"Se saírem com os vossos filhos esta noite. Se o fizeram, não se queixem se eles forem mortos", alertou um dos pivots da televisão nacional.

O poder judicial iraniano advertiu também na sexta-feira que a punição para os "manifestantes violentos" seria "máxima".

Um procurador distrital da cidade de Esfarayen, no leste do Irão, bem como vários membros das forças de segurança, foram mortos na noite de quinta-feira durante protestos, segundo o poder judicial.

As declarações da Guarda e do Líder Supremo podem indicar que as forças de segurança, já sobrecarregadas em todo o país, estarão a planear agravar a supressão dos protestos com meios mais pesados.
Comunicações bloqueadas
As informações sobre o que se passa realmente no país são escassas devido ao bloqueio imposto à internet e à rede telefónica.O regime dos ayatollahs costuma recorrer a estes cortes de comunicações para impedir o envio, para o exterior, de imagens que comprovem a violência com que as suas forças de segurança se lançam sobre os manifestantes.
Os protestos atuais, iniciados dia 28 de dezembro de 2025, entraram esta sexta-feira no 13º dia sem traços de abrandar, apesar de várias notícias, publicadas na rede social X, darem conta da ocorrência de autênticos massacres.

São relatos cuja veracidade é impossível de verificar sem fontes internas fiáveis. 

A ONG de monitorização de cibersegurança Netblocks referiu na rede social X que "já passaram 24 horas desde que o Irão implementou um bloqueio total da internet em todo o país, com a conectividade reduzida a um por cento do nível normal".

O multimilionário Elon Musk terá disponibilizado a sua rede global de satélites, Starlink, para contornar o apagão decretado pelo regime iraniano.

A falta de antenas estará contudo a dificultar a sua utilização. Algumas fontes referem que agentes israelitas da Mossad estarão a distribui-las aos líderes da oposição. Muitos utilizadores estarão também a aceder à internet através de redes virtuais privadas (VPNs). Mas podem ser apenas rumores sem veracidade.

Esta sexta-feira, um vídeo mostra uma multidão a, alegadamente, incendiar o túmulo de Khomenei, fundador da Revolução Islâmica de 1979.

Outro vídeo reporta que os manifestates incendiaram mesquitas em Teerão já esta noite.

Estão ainda a ser difundidas imagens de propaganda com mulheres a acenderem cigarros após atearem uma foto de Khamenei, que estão a tornar-se virais.


Na guerra de informações sem possibilidade de verificação Independente, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão acusou entretanto os Estados Unidos e Israel de "intervirem diretamente" nas manifestações.

Abbas Araghchi, de visita ao Líbano, alegadamente com a família, afastou contudo a possibilidade de intervenção militar estrangeira.
ONG denunciam repressão
Estes são os maiores protestos registados nos últimos três anos no país e a sua amplitude parece ter-se tornado uma ameaça séria ao regime islâmico.

"Morte ao ditador" foi o grito mais ouvido esta semana nas ruas de Teerão e de outras grandes cidades, com milhões de iranianos a exigir abertamente nas ruas o fim da teocracia xiita.

Em várias cidades europeias, a diáspora iraniana e os seus apoiantes saíram igualmente à rua em apoio à luta dos seus compatriotas e contra a repressão.

A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch afirmam que a repressão mortal dos manifestantes em todo o Irão se iniciou logo no dia 28.

As autoridades iranianas têm recorrido ao "uso ilegal da força e armas de fogo e prisões arbitrárias em massa", de acordo com um comunicado publicado esta sexta-feira na página portuguesa da Amnistia.

"As conclusões das organizações revelam como as forças de segurança, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a polícia iraniana, conhecida pela sigla persa FARAJA, utilizaram ilegalmente espingardas, caçadeiras carregadas com balas de metal, canhões de água, gás lacrimogéneo e espancamentos para dispersar, intimidar e punir manifestantes maioritariamente pacíficos", refere o texto.

"A repressão resultou na morte de, pelo menos, 28 manifestantes e transeuntes, incluindo crianças, em 13 cidades de oito províncias iranianas, entre 31 de dezembro de 2025 e 3 de janeiro de 2026, com base em informações credíveis recolhidas pela Amnistia Internacional e pela Human Rights Watch", denunciam ainda as duas organizações.

As Nações Unidas já pediram uma investigação independente sobre as mortes ocorridas nos protestos.

A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou por seu lado que a resposta das forças de segurança iranianas aos protestos é "desproporcional" e acrescentou que qualquer violência contra manifestantes pacíficos é inaceitável.
"Desligar a internet enquanto reprime violentamente os protestos expõe um regime com medo do seu próprio povo", acusou Kallas na plataforma de redes sociais X.
O filho do antigo Xá, figura importante da oposição exilada pediu na sexta-feira a Donald Trump que intervenha imediatamente na República Islâmica, onde, afirma, o movimento de protesto contra o governo continua a ganhar força.

"Senhor Presidente, este é um apelo urgente e imediato à sua atenção, apoio e ação", escreveu Reza Pahlavi nas redes sociais. "Por favor, esteja pronto para intervir e ajudar o povo iraniano".

Os protestos, inicialmente motivados por reivindicações relacionadas com o custo de vida, transformaram-se num sério desafio ao regime iraniano, no poder desde a Revolução Islâmica de 1979.
Queda de Mashhad
O presidente dos Estados Unidos da América ameaçou intervir no país, se a repressão fosse letal, mas, numa entrevista quinta-feira, referiu que as vítimas resultavam de um "estampido" humano, tendo sido espezinhadas devido à quantidade de manifestantes. Não citou fontes desta informação.
Esta sexta-feira Trump chegou a sugerir que o ayatollah Khamenei estava a pensar deixar o país, afirmando que ele "está à procura de ir para algum lado".
O presidente dos EUA republicou ainda, na sua rede Truth Social, um vídeo divulgado pelo Canal 13 da televisão israelita, alegando que os manifestantes assumiram o controlo Mashhad, a segunda maior cidade iraniana.

"Mais de um milhão de pessoas manifestaram-se: a segunda maior cidade do Irão caiu sob o controlo dos manifestantes, as forças do regime abandonaram a cidade", refere o texto que acompanha o vídeo. A alegação não foi verificada independentemente.

Mashhad, tem cerca de quatro milhões de habitantes e situa-se perto das fronteiras com o Turquemenistão e o Afeganistão. Alberga também o santuário sagrado do Imã Reza, um importante local de peregrinação.
Tópicos
PUB